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PHOTOTHÈQUE
HOMÉOPATHIQUE
présentée par Homéopathe International
Dr Alfonso MASI-ELIZALDE (1932-2003)
Alfonso Masi-Elizalde
Dr. Alfonso Masi-Elizalde, one of the great names
of contemporary homeopathy, passed away on July 23rd, in Buenos Aires,
Argentina, at the age of 71. His trajectory in homeopathy followed an
interesting genealogy within the Unicist homeopathy field. His father, Jorge
Augusto Masi Elizalde, also a homeopath physician, created, together with
Pablo Paschero, Carlos Fisch and Armando Grosso, a Kentian group inside the
Argentine Homeopathic Medical Association. As years elapsed, the Escuela
Medica Homeopatica Argentina was created and in the 1980’s, Masi-Elisalde
founded, together with his closest associates, the Instituto de Altos
Estudios Homeopaticos James Tyler Kent. Alfonso Masi-Elisalde published
several articles in the magazine “Actas del Instituto James T. Kent”, as
well as celebrated introductions to books such as Gathak’s classic book on
miasmas. He also had a striking participation in many congresses and
conferences worldwide. The study groups founded by him (or inspired by him)
in several cities in Argentina, Brazil, Italy, Germany, France, Switzerland
and Spain remain active, generating continuous interest in students and new
generations of homeopaths. His supervision of clinical cases enlightened and
benefited directly hundreds of people. He had been writing a book for many
years, to which he intended to the give the title of “Confessions of an
old Homeopath”.
Elizalde advocated an exegetic review of homeopath
books, and he did this with absolute vigor. Unable to accept both the
organicist and scientificist reductionism and the excesses of a dogmatic and
non-productive Kentism that did not know how to evolve, he undertook the
task of reviewing the classics and of pointing out the many episthemologic
gaps in the homeopathic corpus. His intensity and assertive
determination in advocating his viewpoints triggered numerous discussions
(some of them healthy, others only disproportionate reactions) in the
audiences he addressed. However, his provocations had a specific didactic
purpose.. After all, he was an expert in maieutics (the Socratic art of
teaching students to think) and, using this technique, he urged students to
always challenge their teachers.
Obviously, this active and
permanent subversion of the established order ensured him a huge supply of
enemies. However, this only caused him to remain fighting for a permanent
debate. On the other side, he also left many friends and students, who,
oscillating between disquiet and angst, saw in these stimuli new prospects
for research. According to Elizalde, homeopathy is still in a scientific
nursery and its maturity will require a permanent and vigilant effort of
many generations of homeopaths. As a friend, student and interlocutor of his
ideas, my first reaction, when I heard of his death, was to remain silent.
The second reaction was to perceive how unfair is the void that is created
by this fact. The third reaction was the following: to write as someone that
is about to be anesthetised and does not know if he/she will ever wake up to
know if everything happened as it should.
Homages have the serious problem of generally staying far from
reaching the honored person’s importance. So, allow me a poetic license, I
will not make any homage. I will be open and confirm that I will write
because I need to do it. He has not only a brilliant homeopath, but a
philosopher of health, and, if I may say so, this is something of a
different magnitude. Masi recreated the significance of modern homeopathy
(and it does not matter who perceived it or not), and with his iconoclastic
fury drove thousands of people in our marginal Latin America, reaching other
continents. The most striking contrast is to see how an iconoclast of his
kind allowed himself to be affected by his associates. Yes, because we took
the risk of interpreting: what was he looking for in discussions: critical
interlocution, caustic intelligence, the stirring argument. Each drop of
rebelliousness preached by him, required a double effort from those who
surrounded him. In many situations, we witnessed his admonishing fury; it
was not addressed to his adversaries (it only looked as if it did) but
against us, who had not reached his critical refinement and his bright
spirit, not to speak of his benevolent non-conformism.
It was not difficult to agree with him. However, to
discuss with someone of his experience and to diverge from someone with his
analytical accuracy was a special privilege. From the top of his
philosopher’s panoramic view, he told many people, amongst which I was,
that what he wanted most to be recognized for, was that it was possible, and
moreover, permitted and desirable, to be an iconoclast. He was one. His
ideas are iconoclastic. If we respected hierarchy, we should have the
consistent dignity of remaining silent and let his adversaries occupy this
precious gap with the revenge of sameness. As we do not respect hierarchies,
we prefer his own poetic words: “our first invention is our own life”.
Well done, Masi.
Paulo Rosenbaum, M.D.
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Portuguese
Dr. Alfonso
Masi-Elizalde, um dos grandes nomes da homeopatia contemporânea faleceu
subitamente dia 23 de julho em Buenos Aires, Argentina, aos 71 anos de
idade. Sua trajetória na homeopatia seguiu uma interessante linhagem dentro
da homeopatia unicista. Seu pai, Jorge Augusto Masi Elizalde,
também médico homeopata junto com Thomas Pablo Paschero,
Carlos Fisch e Armando Grosso, formaram um núcleo kentiano dentro da
Associação Médica Homeopática Argentina. Depois, com os anos, surgiram a
Escuela Médica Homeopática Argentina e nos anos 80 Masi-Elizalde fundou
junto com os colaboradores mais próximos, o Instituto de Altos Estudios
Homeopáticos James Tyler Kent. Alfonso Masi-Elizalde deixou publicado
vários artigos em sua revista “Actas del Instituto James T.
Kent”, célebres prefácios de livros como por exemplo o clássico
de Gathak sobre miasmas, participação marcante em muitos congressos e
conferencias ao redor do mundo. Os grupos de estudo fundados por
ele (ou sob sua inspiração) em várias cidades na Argentina, Brasil,
Itália, Alemanha, França, Suiça e Espanha permanecem ativos gerando
interesse progressivo nos estudantes e nas novas gerações de homeopatas.
Suas supervisões de casos clínicos elucidaram e beneficiaram diretamente
centenas de pessoas. Há anos vinha escrevendo um livro que pretendia
entitular “Confissões de um velho Homeopata”.
Elizalde defendia uma
revisão exegética dos textos homeopáticos e fez isto com absoluto vigor.
Inconformado tanto com o reducionismo organicista e cientificista como
com os excessos de um kentismo dogmático e improdutivo que não soube
evoluir, lançou-se a tarefa de rever os clássicos e apontar as muitas
lacunas epistemológicas do corpus homeopático. Sua veemencia
e assertiva determinação na defesa de seus pontos de vista desencadeou inúmeras
polemicas (algumas sãs, outras apenas reações desporporcionais) nas
platéias por onde passava. Suas provocações, no entanto, tinham uma
precípua finalidade didática. Afinal, era um expert em maieutica (a arte
socrática de ensinar os alunos a pensar) e através desta técnica
pressionava os estudantes a duvidar sempre dos mestres. Claro que esta
subversão militante e permanente da ordem estabelecida lhe garantiu um
enorme manancial de inimigos. O que só o instigava em permanecer
lutando pelo debate permanente. Por outro lado, também deixou muitos
amigos e estudantes que oscilando entre a inquietação e a angustia, vislumbravam nestes
estímulos novas perspectivas de pesquisa. Para Elizalde, a
homeopatia está ainda num bercário científico e sua maturidade vai
requerer permanente e vigilante esforço de várias gerações de
homeopatas. Como amigo,
estudante e interlocutor de seu pensamento meu primeiro impulso foi
reduzir-me ao silêncio quando soube de sua morte. O segundo foi perceber quão
injusto é o vácuo que se cria com uma notícia destas. O terceiro foi
este: escrever como alguém que está para ser anestesiado e não sabe se
vai acordar para saber se tudo aconteceu como deveria acontecer. As
homenagens têm um sério problema de ficarem geralmente aquém do
homenageado. Então me permitam a licença poética mas não farei homenagem
alguma. Vou ser honesto e confirmar que vou escrever porque preciso. Ele não
era somente um brilhante homeopata mas um filósofo da saúde, o que, se me
permitem o reparo, é algo de uma outra magnitude. Masi re-significou a
homeopatia contemporânea (e pouco importa quem percebeu ou não isto) e com
sua fúria iconoclasta impulsionou milhares aqui na nossa marginal América
Latina chegando aos outros continentes. Mas o contraste mais
interessante é como um escolástico de sua estirpe tenha sido o professor
ilustre que mais se permitiu afetar pelos seus colaboradores. Sim, porque
arriscamos a interpretação: o que ele buscava na polêmica: a interlocução
crítica, a inteligência cáustica, o contra-argumento arrebatador. Cada
gota de rebeldia que pregava ele exigia em dobro dos que o rodeavam. E se,
em muitas situações, testemunhamos sua fúria admoestadora, ela não era
contra seus adversários (era apenas o que parecia), mas contra nós que
ainda não havíamos chegado ao seu refinamento crítico e a seu espírito
arguto, muito menos ao seu benévolo inconformismo. Concordar com ele não
era difícil. Mas discutir com alguém com sua experiência e divergir de
alguém com sua precisão analítica é que foi o enorme privilégio. Do
alto de sua visão panorâmica de filósofo ele segredou a muitos entre os
quais a mim mesmo que o que ele queria ver reconhecido nele era de que era
possível, e mais do que isto permitido e desejável, ser um iconoclasta.
Ele foi. Suas idéias são. Se respeitássemos a hierarquia deveríamos ter
a coerente dignidade de ficar bem calados e deixar que seus adversários
ocupem este precioso vácuo com o tradicional revanchismo da mesmice. Como não
a respeitamos preferimos as suas palavras de poeta: “nossa primeira invenção
é nossa própria vida”. Bem bolado, Masi.
Paulo
Rosenbaum M.D.
Copyright
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